I hate you but I love you

Eu lembro que no começo eu achava legal. Óculos, sabem? Eu gostava da idéia de ter que usá-los, curti a notícia. Assim como também me animei com aparelho, com a idéia de ter espinhas, de menstruação… Porque tudo significava alguma coisa que me deixaria diferente, que apontaria pro quanto eu era grande, adulta, ou pelo menos pré-adolescente.

Só que a vida não é essa coisa cor-de-rosa. Quando você menstrua você percebe o tanto que é chato. Que aparelho é chato e feio. Espinhas então nem se fala. E os óculos vão pela mesma estrada.

Eu descobri que teria que usar óculos aos oito anos (ou descobriram por mim, porque nessa idade a única coisa que eu realmente descobri – ainda que tenham na verdade me contado – foi que Papai Noel não existia). E nessa idade eu já tinha um grau considerável para uma criança. Quando entrei pela sala de aula levando na cara meus aros tartaruga-vinho toda a turma se levantou e saiu correndo pra ver a novidade. Foi legal. A famosa piadinha “quatro-olhos” raramente foi usada contra mim, só mesmo quando tinha uma briguinha e qualquer coisa era usada pra insultar, mas na verdade nunca sofri com coleguinhas me xingando por causa de óculos. Lá pelos 9 ou 10 anos eu parei de usar por mim mesma. Lembro que levei um tombo (história até engraçada, outro dia conto), as lentes quebraram e nesse meio tempo de preparar outras eu acabei largando. Usava de vez em quando, mas quase nunca, até largar completamente minhas armações infantis.

E assim foi até meus catorze anos, quando a situação ficou crítica e eu tive que realmente adotar óculos pra vida. Só que nesse meio tempo veio adolescência, espinha, veio querer ficar bonitinha, veio a idéia circulante em revistas, novelas e filmes que óculos estão ali pra atrapalhar a beleza (e que todo mundo tem que querer ser bonita – isso não tem nem discussão – e sobre o que é ser bonita… bem, falaremos disso). Que eles são por definição feios. E aí eu já não achava a idéia tão atraente. Como se já não me bastasse ser gordinha, ter um milhão de cravos e umas boas espinhazinhas, tudo isso ainda com aparelho… eu ainda precisava de mais. A opção foi por uma armação discreta, mas que eu achava legal: era daquelas que tinham umas lentes escuras por cima, que grudavam com um ímazinho, pra eu poder ter óculos de sol junto com as lentes para a miopia e o astigmatismo. OK. Mas ainda não foi suficiente pra me fazer amar a idéia. Colocava quando a aula começava, tirava no intervalo, quando ia embora, recolocava só em casa. Sair por aí de óculos? Acho que não. Tive mais uma armação assim, da turma das discretas, até entrar na universidade. E tudo mudou.

Veja bem, até então eu convivia com gentes de todos os estilos, mas o que predomina mesmo nas escolas a gente bem sabe que é aquele estilo de sempre: cabelão liso, muita maquiagem de tom errado pra pele, um bronze louco, roupa apertada (de preferência com uma barriga à mostra), brincos enormes… Enfim, deu pra sacar que os óculos não entram aí nessa conta, né?  E de maneira geral eu mesma não entrava, mas isso são outros quinhentos.) Mas aí que eu entro num curso de humanas, freqüentando uma faculdade de humanas, composta basicamente por muita gente que lê o dia inteiro (os que não lêem muito, deveriam; os que não lêem são os que posam de devoradores de livros) e para os quais ser intelectual é na verdade cool. Acho que percebi então, aos poucos (não só por isso, claro), que afinal de contas aquele modelo de beleza não era lá universal e que  universal ou não, eu não precisava seui-lo. E eu na verdade comecei a pensar que óculos faziam parte de mim: eu tinha que usá-los, de preferência o tempo todo para o meu próprio bem, então por que armações que fingiam que não estavam lá? Daquela vez comprei armações escuras, roxas e grossas.

A partir daí vieram outras: uma preta de ladinhos brancos, uma tartaruga… E eu acabei me acostumando muito com o fato de estar de óculos o tempo todo. Acordar, lavar o rosto, óculos na cara. Pausa para o banho. E por fim a retirada final na hora de apagar as luzes e dormir. Não estava lá feliz com o fato de ter que depender de algo externo para poder enxergar – quem está? Mas eles continuavam, com alguma pausa pra uma lente gelatinosa (que por problemas de grau não corrigiam tudo) nas horas de sair pra alguma festchénha.

E aí eu me apaixonei. As pessoas estranharam, falaram, fizeram cara feia. Tem gente que me olha na rua quando estou andando com eles. Mas são os óculos mais parte de mim que já tive. Aqueles vermelhos grandes, que realmente não têm vergonha de estar ali, muito pelo contrário. I’m here. I’m partly blind. Get used to it. Pra plagiar. Mas é isso mesmo. Eu curto meus óculos, eu preciso de óculos e eu acho que eles caem bem. E eles não são comuns, não são o esperado, não disfarçam simplesmente porque “óculos tem que ser discreto”. Eles são meio eu – e eu sou meio eles.

***

“Com o seu grau, você tem que usar lentes de contato rígidas. Não é renunciar aos óculos, você pode tê-los, mas se você quer conforto, tem que usar as lentes.”

***

Úrsula me perguntaria: “A vida é cheia de escolhas difíceis, não é?”. É, Úrsula. É. Mais do que isso, ela é cheia de pegadinhas do Malandro, de reviravoltas. É um gosta, desgosta, não tem outra opção, convive, ama, tem que largar. Porque quando a gente quer, não pode; quando deve, não quer. E isso vale é pra muita coisa.

Passa um batonzinho que melhora.

*Ao som de Russian Red – I Hate You But I Love You

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4 Comentários

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4 Respostas para “I hate you but I love you

  1. Sabe que quando eu leio seu blog eu fico com vontade de escrever no meu? acho que é pq eu gosto do jeito como vc escreve. Mas afff, pra sair alguma coisa eu preciso estar em estado de procrastinaçao (uma idéia “genial” – ou jenial, como diria o PHA – soh vem quando eu preciso escrever um trabalho pro dia seguinte, sàcomé?).
    Enfim, sobre os oculos, paciência. Se vc tiver mesmo que usar lentes, é pq é melhor pra sua saude. Vc vai perder uma marca registrada (é tao legal essas pessoas que tem marca registrada!), mas vai continuar bonita, de todo jeito =)

    • Olivia

      Nossa, Martha, obrigada!!!! Mas é, te entendo. Eu mesma fico ages sem postar nada… Dessa vez foi por causa do semestre extremamente atarefado, aí eu tive mil idéias de posts que eu já esqueci… Mas escreva! Tenta colocar uma meta de um post por semana, nem que seja um vídeo, uma imagem, só pra manter o ritmo.

      Quanto aos óculos, tô parando de fazer tanto drama, mas ainda é chato. Decidi que vou mesmo em outro oftalmologista, olhar realmente meu grau, mandar fazer a lente (carésima, by the way) e tentar usar bastante, mas com espaço pros óculos qdo eu quiser. =)

      • Rà, fiz um post, enorme por sinal. Eh, vou tentar essa de videos e tal pra nao deixar o blog completamente às moscas.

        Vai ser otimo se vc puder conseguir usar os oculos de vez em quando, eles realmente sao muito você. Pense que nao poder usa-los sempre vai ser uma forma de nao banalizà-los – tipo, quando você usar, eles vao ser mto mais evidenciados =)

  2. Pingback: Lend me your ears and I’ll sing you a song | Nowherelander

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