Sobre um texto do Sr. Ignácio de Loyola Brandão ou Porque aprender um idioma

Na última sexta-feira, dia 4 de novembro de 2011, o colunista Ignácio de Loyola Brandão publicou no Estadão seu texto intitulado “Sabendo francês podemos ser mais felizes“, no qual discorre sobre as vantagens de se saber tal idioma. Poder ler textos dos grandes filófosos e literatos no idioma original, mergulhar na produção cinematográfica francesa (ele cita os seios das atrizes e imagino que realmente deve-se apreciar melhor cenas de nudez se você é francófilo, ainda que não existam diálogos, afinal de contas você está pensando num idioma mais sensual) e poder desfrutar Paris (ele cita apenas a metrópole) fazendo compras sem necessitar de um intérprete nem recorrer aos gestos (o civilizado domina a palavra, dizem por aí).

Li todo o texto pensando que, com uns ajustes aqui e ali, eu poderia dizer a mesma coisa sobre praticamente qualquer idioma. Isto é, se vamos louvar a filosofia, a literatura, a música e o cinema ocidentais, não vejo porque não falar o mesmo sobre o alemão, o inglês, o espanhol, o italiano… até sobre o português! Em todas estas línguas é possível citar o mesmo número de nomes igualmente importantes para nossa cultura. Isto, é claro, sem citar pensadores africanos e orientais.

Aliás, é contundente uma frase do texto. “Hoje estamos aprendendo apenas o que o mercado chama de línguas úteis, como o inglês, o japonês, o mandarim. Mandarim? (Eu lá quero falar chinês?)” E por que não? Se uma das lindas características do francês são suas nuances, o que dizer do mandarim, que tem nada menos que cinco entonações de pronúncia para cada sílaba? Cada uma resultando num significado diferente. Me parece que com toda a sua erudição adquirida pelas várias décadas de vida e com uma bagagem tão extensa em relação à cultura francesa, o Sr. Ignácio de Loyola Brandão não foi capaz de perceber que esta não é a única cultura do mundo. A França conseguiu lhe vender muito bem a ideia. Se for assim, creio que sem saber francês já sou mais feliz do que este senhor, que vê apenas em Paris a sua realização e que se priva do que o resto do mundo tem a oferecer.

Uma reflexão maior certamente o teria levado à conclusão (óbvia) que aprender um idioma significa também aprender uma nova forma de pensar, é mergulhar naquela cultura, é entender costumes, é estar em contato com uma nova visão de mundo. Nenhuma é melhor ou pior, mais certa ou errada, é apenas diferente. Ou talvez o mergulho de cabeça no francês o fez acreditar em certos ideais de civilização que colocam a França como seu maior exemplo e o resto caracterizado como barbárie. Uma leitura certamente inocente, não?

E quanto ao que seria viajar? Enquanto este senhor se limita aos quartiers de Paris (não é a França toda, não deve ir nem à periferia da capital) e usa seu francês para fazer compras e pedir comida no bistrô, outros acreditam que a verdadeira viagem é aquela que te coloca em contato com as pessoas, com o local (e me incluo nesta turma). Conhecer é conversar, trocar idéias, ir além do mapa turístico. Se tem algo que aprendi em algumas viagens é que o importante não é o lugar, mas as pessoas.

Se eu invisto tempo, esforço e dinheiro no aprendizado de outras línguas, não é esperando que o cara do stand de informações turísticas passe a me tratar bem porque me dirigi a ele em seu idioma (quem define todo seu comportamento em relação a outra pessoa baseada puramente nisto absolutamente não é do tipo com quem eu gosto de conversar), mas sim com o objetivo de realizar aquilo que é o propósito da língua: comunicar. E não é só pra pedir descontos.

Aliás, se é pra pechinchar, creio que o francês será de maior proveito nos souks do Marrocos. Mas se é pra começar do zero, melhor ir direto pro árabe. Só não sei afirmar se a quantia poupada compensaria o gasto de dinheiro e tempo despendidos no aprendizado do idioma.

Nos meus 25 anos eu consegui ser capaz de conversar em três idiomas estrangeiros, nenhum deles o francês, e estou longe de pensar que algum dia estarei satisfeita com este número. Tendo em vista a vida que o Sr. Ignácio de Loyola Brandão descreveu e com a qual se sente tão realizado, acho que temos ideias bastante distintas de felicidade. “Há na nossa vida algo que é preciso preencher. Uma necessidade interior de espírito, contemplação do mundo, da vida, avaliação das coisas.” Bem, se tudo isto foi preenchido apenas com o francês, devo dizer que este senhor é muito raso.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Sobre um texto do Sr. Ignácio de Loyola Brandão ou Porque aprender um idioma

  1. Esse cara foi um total babaca, né. Eu bem dei uma defendida nos franceses, pq realmente os “amantes da França” sao MUITO²²²²²² mais conservadores do que os franceses eles-mesmos. A lingua e a cultura francesas conseguem atrait um numero incrivel de gente pretenciosa que, por sua vez, reforçam e “filtram” a imagem da França que chega até a gente (um exemplo? Nao sei de nenhum professor de francês que diga que a segunda religiao da França é o islam… nem sei se eles sabem disso! Preferem a imagem oitocentista do pais, do que saber realmente o que se passa agora…).

    Mas enfim, depois dessa de defender os franceses, veio a decepçao. Tava conversando com um amigo do meu namorado e ele vira e me diz que se nao fosse por um francês ai (Henri Salvador, eu acho), A BOSSA NOVA NEM EXISTIA.
    Dai eu rodei a baiana, né. Sério, amigo? O que seria do mundo sem a França, né? Aliàs, O QUE os franceses NAO inventaram?

    Dai ele se corrigiu, disse que nao era exatamente isso que ele queria dizer, que o cara tinha sido soh uma influência e blablabla…

    Mas porra. Até um francês muito esclarecido (ele mora no egito, jah atravessou o japao a pé e etc) nao consegue escapar de ter certos pré-conceitos no sangue.

    Eh fueda.

    • Olivia

      Acho que a vida toda a imagem que a gente tem da Europa é essa aí que esse cara fica exaltando, sabe. É tudo muito culto, muito lindo, muita finesse. E quando você vai pra ficar como turista, é fácil confirmar essa visão. Só que quando a gente vai pra morar e morar tendo que conseguir visto, tendo que trabalhar, estudar… Aí sim a gente vê que europeu não é esse poço de sabedoria e que do mesmo jeito que aqui tem gente babaca, lá também tem. Assim como também existem pessoas super legais e que não estão mergulhadas nos estereótipos, e isso dos dois lados também.
      Sei lá, acho que a raiva que a gente tem quando escuta umas coisas assim é maior porque a expectativa era grande, pelo menos a minha era. Agora, eu fico é muito p*** com pessoas que viajam, conhecem um milhao de coisas e saem disso sem mudar nada, com a mesma visão estreita. Aí não dá pra aguentar!

      E até imagino você fervendo de ódio ao escutar o cara soltar uma frase dessas!!!!!! Hahahahahahha!!!!!!

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