Neguinho que eu falo é nós

Eu vou citar aqui um filme e eu quero que você pense bem antes de me criticar. Ou não, porque eu não me importo e curto mesmo. Mas enfim, eu estou aqui citando a fala de Drew Barrymore em Letra e Música (Music and Lyrics, 2007), que faz uma analogia até interessante e me deixou pensando: “A melody is like seeing someone for the first time. The physical attraction. Sex. […] But then, as you get to know the person, that’s the lyrics. Their story. Who they are underneath.

Vou falar que assim, eu me senti a verdadeira music whore depois disso aí, porque pra mim melodia sempre foi o principal. E de certa maneira ainda é, mas eu fui aprendendo a dar mais valor às letras, porque afinal de contas é muito difícil escrever certas coisas, ter habilidade de usar palavras para transmitir sentimentos ou simplesmente colocar de maneira mais clara e simples o que é que você pensa sobre determinado assunto. Porque em prosa, apesar de não ser exatamente moleza, pelo menos você está mais livre, sem ter que se encaixar num ritmo ou num espaço limitado, você pode desenvolver e escrever e escrever.

***

Outro dia aconteceu uma dessas injustiças divinas que a gente tanto vê por aí. A velha história de que quem tem não valoriza tanto quanto quem não tem.

Enquanto tinha gente quase chorando para ir ao show da Gal Costa, me caiu um ingresso no colo e lá fui eu, pela pura obrigação de acompanhar minha mãe. Não que eu desgoste da Gal Costa, mas é que também não sou fã e a bem da verdade sempre tive uma certa preguiça dessa coisa de idolatrar esse povo todo que segue na esteira do Caetano Veloso. A verdade é que eu não gosto mesmo é do Caetano, mas isso sempre se deu puramente no plano pessoal: eu não gosto da pessoa dele. (#todososcultrecrimina) Mas falarei mais sobre Caetano em outra oportunidade.

Fato é que show em teatro, com todo mundo sentadinho, não provoca comoção, não é? Não tem gente gritando, mal tem gente cantando junto (eu curto cantar junto, eu sou a rainha do sing along – é por isso que vou a um karaoke hoje), é tudo uma contemplação muda e os aplausos ao fim de cada música.

E aí que de repente entra uma música nova, uma que não ficou famosa e consagrada como clássico nas últimas décadas, uma fresquinha, que provavelmente praticamente ninguém ali tinha escutado ainda. De melodia ela não tem nada demais, mas a letra… Essa, sim, é de chamar a atenção.

***

Na época do meu intensivão em educação musical (procurar nos posts do começo do ano) eu li um tantinho de coisas, vi outro tanto de documentários e vira e mexe estava ali a questão das letras. Aquela música pode ser sensacional, mas parte do que a torna icônica é a letra (e ainda como a letra é cantada – assunto para outro post), é o que se diz, como se diz, quando se diz…

Porque a genialidade do The Who não se restringe às melodias (que por si só já valem tanto), mas também deve aos gritos de “teenage wasteland” e ao cantar gago de “talking about my g-g-g-generation”, que se certamente mexem com o que há de espírito jovem em mim, nem imagino o que devem ter provocado à toda aquela geração que estava na fúria toda da revolta.

É na letra de “Something” que está a declaração de amor, é a letra de “Stairway to Heaven” que demorou a ser composta para acompanhar uma das melodias mais bonitas que eu já ouvi, é a letra de “Romaria” que expressa a fé de uma maneira tão bonita.

Talvez por sempre escutar músicas em inglês, mesmo quando ainda não dominava o idioma, o que se fala sempre me pareceu de menos importância, até que se tornou, na minha cabeça, um simples acessório.

***

Quando a Gal Costa começa a cantar uma música meio que falada, eu penso que aquilo ali deve ser mais uma dessas coisas “experimentais” do Caetano. Eu meio que tenho preguiça de “experimental”. Mas aí eu presto atenção e não  sei se todo mundo está prestando atenção. Até que, numa frase encerrando a idéia da música, a platéia inteira se desmancha em aplausos e gritos.

*Ao som de Gal Costa – Neguinho

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5 Comentários

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5 Respostas para “Neguinho que eu falo é nós

  1. Olha que coisa. Esse post sobre as letras me fez lembrar de quando fomos no show do Gilberto Gil aqui e ele cantou uma mùsica que eu atè chorei escutando por cuasa da letra. Acho que me identifiquei, com um pouco de licença poètica, claro. Chama Lamento sertanejo e nào sei de quem è, o Gil canta, tb o Djavan e o Dominguinhos. Das versoes que eu achei a dos dois ultimos sào mais bonitas. Mas eu escurei e depois nao sabia o nome e esqueci de procurar. Dai lendo hoje me lembrei e fui procurar. Escuta ela depois.

    • na verdade descobri que è do Gil e do Dominguinhos, e achei uma versào linda:

      Vc que curte Sègio Reis vai gostar! 😀

      • ai nào gente, vc gosta è de Almir Sater! Fiz confusào… Foi mals ae!

      • Olivia

        Até o vídeo é bonito, esse início com os balões de papel de festa junina…! Que léndo!!!! As músicas sertanejas (não sertanejo romântico nem universitário, mas essas tipo essa q vc postou) têm o dom de ter letras sensacionais, não é? Acho que é até outra maneira de pensar, não sei… Eu gosto do Sérgio Reis também, mas meu amor é mesmo pelo Almir Sater. E também gosto do Renato Teixeira, ele é bom. Agora, dá uma ouvida aí no álbum d’O Grande Encontro, o que tem “Bicho de 7 cabeças” e “Disparada”. É muito ótimo!!! E essas músicas também têm letras muito lindas!

  2. eu adoro “bicho de 7 cabeças” e “dona da minha cabeça”!!!!

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