Bigger than my body

Desde que o mundo ao meu redor é digital e o que é palpável mesmo parecem ser apenas os instrumentos reprodutores de mídias (pelos quais podemos chegar a pagar muito caro), eu me pego numa dúvida eterna de como agir perante o valor do virtual.

Os mais radicais me chamarão de marxista (que parece que já passou de conceito a xingamento automático – mas eu atribuo isso a esses mesmos radicais que têm uma visão demasiado estreita daquilo que não conhecem), mas o fato é que tenho uma dificuldade imensa em pagar por um arquivo digital. E eu sei que os custos de um filme, livro ou uma música ultrapassam aqueles do material que resulta em um DVD (sou antiga? Já é tudo Blu-Ray?), um CD ou um livro de papel, mas num mundo onde tais coisas parecem tão flutuantes e descartáveis, fica difícil atribuir o mesmo valor que antes me parecia tão inquestionável.

Cadê o trabalho?

Não vou entrar muito no meio musical, porque aquilo ali me parece uma bagunça muito grande e, pensando com os meus botões, com o barateamento da mídia em si e considerando que arquivos digitais também não são necessariamente comercializados diretamente pelo artista nem gravadora (vide iTunes), talvez as coisas saiam “elas por elas”.

Mas recentemente fiquei pensando nos livros. Veja bem, desde maio deste ano eu sou a feliz proprietária de um Kindle Touch, que até hoje me trouxe de custos apenas seu próprio valor, visto que tudo o que está ali dentro foi adquirido não pela Amazon, mas por outros canais por aí (você sabe do que estou falando). A questão é que, antes de saber que existiam outras maneiras de conseguir arquivos para o Kindle eu ainda considerava seriamente a compra do aparelho, pelo simples fato de que não teria que esperar tanto tempo para receber um livro, podendo iniciar a leitura imediatamente e ainda sem pagar frente. Sem contar que o arquivo, claro, me custaria bem mais barato. Só que não. Na maioria dos casos, comprar o arquivo para Kindle e o próprio livro custam o mesmo ou quase isso, e embora as vantagens citadas acima realmente persistam, qual é a justificativa para o valor tão parecido? Fiquei pensando que se por um lado não se gasta com a produção em si nem com depósito, por outro lado devem ser criados novos custos para o serviço de downloads e servidores abrigando aqueles arquivos. Mas ainda assim, não me parece que os custos se equiparem, tendo em vista que serviços relacionado a armazenamento e rede, se já razoavelmente baratos para o uso doméstico, devem ser “fichinha” para grandes empresas. Além disso, por que o investimento em um novo formato se ele não trará maiores lucros?

Mas vamos supor que o preço seja esse mesmo, o que está circulando, que afinal de contas não haja tanta diferença entre o lucro alcançado antes e o agora. Ainda assim, por que parece tão difícil atribuir valor aos arquivos digitais? Pelo menos é este meu caso. Eu não consigo chegar a outra resposta além da própria cultura de posse que persiste, o ter a estante cheia, a videoteca… A coleção. Encher a casa daquilo que diz algo sobre você mesmo, emprestar, trocar, espalhar aquilo que você gosta de alguma forma. De qualquer forma, mantém as trocas a nível físico. Pelo menos a socialização ainda não totalmente virtual.

Prateleiras

*Ao som de John Mayer – Bigger Than My Body

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