Stranger

Antes de ir pra Alemanha um monte de gente me perguntava: “Mas cara pálida, por que você quer ir pra um lugar de gente rude?”. Essa idéia de que alemães não conversam, mas brigam e por aí vai. E eu realmente estava preparada para um mar de olhares gélidos – e não foi bem o que eu encontrei.

É importante notar que eles tampouco são exemplo de amabilidade. Mas como em qualquer lugar, existem pessoas muito amáveis e outras nem tanto. Ao longo do tempo, indo e vindo (principalmente vindo, porque é de longe que a gente parece ter calma para pensar e ponderar), fui chegando a algumas conclusões.

***

– Vamos ao cinema?

– Não, obrigada, não estou com vontade.

Era assim um dos exemplos em uma das lições no livro didático de alemão. Os quatro alunos dentro de sala chocados com essa sinceridade.

***

Eu não tenho profundo conhecimento de como são as relações interpessoais nas várias regiões desse Brasil, não sei direito nem como são as coisas no interior (talvez a diferença cidade grande/cidade do interior seja maior do que entre regiões), mas falando daqui de Belo Horizonte, o que vejo são pessoas que evitam ao máximo o confronto. Eu tendo a pensar que isso seja algo de todo o país, visto a apatia a certos assuntos que são de interesse geral, falta de participação política (mas aí também entram outras coisas sobre as quais talvez um dia eu me force a escrever para organizar as idéias)…

Talvez tenhamos um sério problema em expressar nossas opiniões assumindo responsabilidade por elas, então raramente alguém vai dar aquela resposta acima a um convite, mas vai inventar uma desculpa que dá a entender que você gostaria de aceitá-lo, mas forças maiores do que você mesmo de impedem. Ninguém quer bater de frente com ninguém, todo mundo quer ser muito diplomático e agradar a todos (o que também pode ter algo a ver com o fato de que são relações interpessoais que influem muito mais no alcance do sucesso profissional e tudo o mais do que o mérito, daí a necessidade de “estar bem na fita, bro”). Talvez por isso sejamos exímios contadores de causo.

Eu acho que nunca me acostumaria com a sinceridade crua e a falta de desejo completo de ser legal várias vezes de alguns alemães. De acordo com o meio no qual fui criada, o que penso é que não custa falar num tom menos agressivo, de menos ordem. Vivi um curso extensivo e intensivo (sim, as duas coisas ao mesmo tempo) de como forçar os outros a fazer aquilo que se quer mexendo puramente com o emocional, raramente ordenando. (Mãe?)

De qualquer maneira, como estrangeira cabia a mim me adaptar e perceber que aquele jeito cru de falar alguma coisa não era uma falta de educação direcionada à mim, não queria dizer que alguém estava especialmente bravo comigo – era apenas a maneira mais sincera de dizer alguma coisa, e ainda uma maneira que não deixaria dúvidas. Se alguém está insatisfeito com algo, é comum que se diga de cara e pronto.

Precisamos de terapia. A nacionalidade inteira.

*Ao som de Noah And The Whale – Stranger

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1 comentário

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Uma resposta para “Stranger

  1. Helen

    As coisas seriam muito mais fáceis se todo mundo agisse assim, sem frescura, né? Confesso que tenho muita vontade mas, como eu já sou classificada como metida e antipática mesmo sem fazer essas coisas, fico com medo de fazer e, sei lá, apanhar (hahahahaha ô exagero).

    Mudando de assunto: por que você matou nosso e-mail? (Resposta: Ah, Lela, eu não estava com vontade de te responder. hahahahahahahahahaha)

    Besos!

    Observação: estou de férias no tra-ba-lhooo! Vamos nos encontrar um dia desses?

    Beijos!

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