Eu abria as portas de um armário para entrar no lugar som

Dava para dizer que ouvir música era uma atividade. Não era algo que ficava tocando enquanto alguém cozinhava, limpava a casa, conversava, lia – era a atividade em si. Na minha casa o som ficava na sala. O som, aliás, era um lugar: com aqueles sistemas complexos e vários aparelhos ligados uns aos outros, o som tinha o seu próprio espaço. Eu abria as portas de um armário para entrar no lugar som. Naquele cômodo compartilhado com os outros, competindo com a televisão, eu colocava então os fones de ouvido (enormes, duas meias-esferas coladas às orelhas), me virava para o próprio aparelho e pronto.

Ali, sentada ou deitada no chão, eu passei várias horas da minha vida. Eu via o som nos ponteiros do medidor de VU. Eu via a música nas capas e nos encartes dos álbuns.

 

***

Há alguns meses atrás aconteceu de eu não ter vontade de fazer absolutamente nada das coisas que eu normalmente faço quando estou sozinha, com preguiça e quero me divertir: não conseguia me concentrar para ler, ver filmes ou séries. Nada me interessava. Mas a eventual música de fundo me prendia, me hipnotizava, até que eu me rendi e aceitei que o que eu estava fazendo naquele momento era apenas ouvir música.

Ficava deitada e olhando para o teto, ou ia para a varanda e via a cidade, mas não é a mesma coisa que era antes, sem os objetos do som. É ótimo, mas é diferente. Os olhos vagam, a gente vaga.

***

Já falei há um tempo atrás que tendo a apagar a letra quando escuto música. Acontece. É que a melodia, os instrumentos, o ritmo – tudo isso é muito mais imediato, é o primeiro sopro quente que me chega e domina, e geralmente eu me deixo levar por essa primeira satisfação, por esse pulsar que me informa até de como mover meu corpo. Mas tem a letra.

Quando eu era adolescente o CD ainda tinha seu lugar de destaque. Um item desejado, pensado e planejado dentro do minguado fluxo financeiro dessa idade. Foi a última vez que a música foi um objeto, depois dos vinis e das fitas cassete, e se bem feito, o CD era um caminho para a imersão total.

Porque os encartes tinham as letras (quando não, era uma tristeza sem fim, nos sentíamos todos enganados), e aí a música pegava os olhos também. Sim, há outras maneiras de ver música, com as capas, as fotos dos artistas, as performances, os videoclipes… São outras representações. Mas ir acompanhando a letra era como vestir a música, se apropriar da música – era estar ali só para isso.

***

Lembro que eu ficava vidrada a cada novo passo da música portátil: quando ganhei um walkman, um discman, um mp3 player… Eram possibilidades de não me separar das músicas que eu amava, mesmo longe do lugar e dos objetos do som. Aquela velha história de querer ter trilha sonora para a vida.

A música portátil tem algo de maravilhoso mesmo. Mas eu ando gostando da música para olhar, pegar, falar.

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