The Book Report (03.2013)

Inesperadamente, um mês de muitas leituras (e menos facebook – é possível!). Recomendo muito o Kazuo Ishiguro ali. Ele é mágico.

Wuthering Heights, de Emily Brontë

Wuthering Heights

A

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Fahrenheit 451

A

The Remains of the Day, de Kazuo Ishiguro

The Remains of the Day

A

A Invenção de Morel,  de Adolfo Bioy Casares

A Invenção de Morel

A

Saphirblau (Die Edelstein Trilogie #2), de Kerstin Gier

Saphirblau

A

The Silver Linings Playbook, de Matthew Quick

The Silver Linings Playbook

A

Hinter verzauberten Fenstern, de Cornelia Funke

Hinter verzauberten Fenstern

 
A
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Tumblr: quase zerando a internet

Chega um certo momento em que tudo cansa.

Outro dia vi um artigo sobre como adolescentes não curtem mais o Facebook. Claro que isso não quer dizer que o Facebook está correndo o mesmo risco que o Orkut visto seu alcance muito maior, mas ainda assim, fiquei curiosa com a outra plataforma: o Tumblr.

Até então eu nunca tinha me interessado por ele. Pra mim não passava de um blog de imagens, e que graça tem isso? Quero dizer, existem uns legais, com seleções muito incríveis (ver Dads are the original hipsters e Awesome people hanging out together) ou mesmo com GIFs colocados em situações engraçadas (Como eu me sinto quando). Fora isso, no entanto, não entendia o porque de passar tempo no Tumblr, como navegar nele da mesma maneira que se navega no Youtube, e muito menos porque me cadastrar nele. Como leitora de blogs, por exemplo, eu não preciso me cadastrar em qualquer tipo de serviço (seja WordPress, Blogger e por aí vai) para poder comentar e criar um diálogo.

Aí é que entra a parte interessante do Tumblr: além de criar seu conteúdo você pode “reblogar” um post de outra pessoa qualquer, adicionando seu comentário (e mantendo a origem, ou mesmo todo o caminho que esse post fez até chegar em você, com todos os comentários) e criando dessa forma também uma espécie de rede. Claro, a não ser que você tenha algum assunto específico sobre o qual queira discutir, talvez não haja tanta graça, mas no meu caso específico, procurando por bibliotecários, arquivistas e gente da ciência da informação em geral descobri todo tipo de coisa, desde posts brincalhões até discussões mais sérias sobre os problemas atuais do ramo.

Duvido que adolescentes estejam usando essa rede social com o mesmo propósito e desconfio que a predominância deve ser mesmo de gifs de qualquer coisa que esteja na moda entre menores de 17 anos, séries e animais fofos, mas ainda assim é interessante pescar essas possibilidades que o Tumblr traz.

Além disso, há o fato de se poder ter quantas identidades você quiser. Enquanto o Facebook cada vez mais fecha o cerco em torno daqueles com perfis falsos e parece se debruçar sobre o propósito de extinguir a anonimidade no mundo virtual, o Tumblr permite que você crie um sem número de blogs com a mesma conta sem nunca revelar seu nome de usuário original ou quais outros blogs você tem dentro do serviço. Isso é especialmente interessante se pensamos que somos multifacetados: posso gostar de várias coisas muito distintas entre si e fazer um blog para cada uma delas, criando redes diferentes de acordo com meu gosto (afinal de contas é bem difícil encontrar pessoas que se interessem igualmente por todas as coisas que me agradam).

Para adultos talvez seja um pouco mais difícil admitir essa variedade (fomos pressionados durante algum tempo a definir nossa vida, prioridades… E somos geralmente definidos pelo nosso trabalho), mas para jovens que ainda têm a licença para experimentar de tudo antes de encontrarem seu lugar na sociedade, essa pluralidade é permitida – e aproveitada.

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I’m on the top of the world looking down on creation #5

Desde que o Mineirão foi reinaugurado ele é assunto. Não tem água, não tem comida, tudo é caro, a administração é péssima, nenhum funcionário sabe de coisa alguma, futebol já deixou de ser popular com esses preços absurdos. Mas o que me interessou mesmo foram os shows. Porque desde a reinauguração tem boatos sobre tudo quanto é coisa e, melhor de tudo, eles estão se tornando verdade. O primeiro a fazer música ali dentro foi Elton John, Paul Chato McCartney já tem data confirmada (e aparentemente desta vez BH será sua única parada no Brasil) e por um momento tivemos rumores até de The Who por aqui. Não parece que eles vão chegar exatamente por aqui, mas pelo menos ao Brasil os caras devem vir, o que já foi o suficiente pra me deixar muy eufórica e escutar sem parar o álbum Quadrophenia, que nesta turnê está sendo tocado na íntegra juntamente com outras músicas. Já me imagino cantando loucamente “teenage wastelaaaaaaannnnd”.

– The Real Me (The Who)

Vou admitir que eu basicamente sempre fiquei no Who’s Next e um pouco menos no My Generation, porque se eles tivessem feito só isso já estava suficiente. Aí comecei a ouvir o QuadropheniaA verdade é que apesar de tudo o que dizem do Pete Townshend (porque ele diz abertamente que eles são melhores que o Led Zeppelin), em certa medida eu concordo com ele: eles foram injustiçados. Embora seja uma banda grande e de renome, enquanto TODO mundo conhece Led, The Who já me parece ser um nome mais restrito ao mundo das pessoas que realmente se interessam por música, especialmente rock. Ou pelo menos é o que me parece ser por aqui, porque na verdade nos EUA e Reino Unido parece que eles recebem lá seus créditos. E voltando à comparação com Led (que acho injusta, afinal são coisas bem diferentes), se tem uma coisa que eu prefiro no The Who é a habilidade de fazer letras muito mais profundas quanto a sentimentos e a maneira genial do Roger Daltrey de cantar essas coisas. Porque o que eu escuto é um cara que realmente quer dizer aquilo ali.

– Yesterday (The Beatles)

Eu detesto o Paul. Já falei isso, tem um post inteiramente dedicado ao assunto. Mas o cara escreveu a primeira música dos Beatles que eu escutei e foi tipo: bam! – já era, a partir daí sempre tentava escutar mais da banda. Era uma música bonita, calma, com letras interessantes – e uma das primeiras coisas que eu aprendi a tocar no violão.

– Goodbye Yellow Brick Road (Elton John)

Eu acho que já disse isso por aqui várias vezes, mas eu tenho uma relação especial com essa música. Eu me lembro de escutar ela sempre em casa, especialmente sábados pela manhã, lá pela época em que eu tinha uns 4 anos, quando meu pai colocava uma fita cassete com a seleção mais variada do universo – e lá no meio, entre músicas francesas e latinas, estava esta. Nunca soube de quem era, nem me interessava, é verdade. Até que um dia, remexendo nas fitas, uns bons 15 anos depois, encontrei essa e comecei a escutar e me fixei em “Goodbye Yellow Brick Road”. Só fui saber que era do Elton John algum tempo depois.

Quando o piano tocou essa introdução no show eu gritei. Ao meu redor eu fui a única que reconheci – ou era a única tão empolgada com essa música. É engraçado como as memórias da infância são as que permanecem com tanta força e nos tocam tanto, que lembramos de uma forma tão feliz e tão triste ao mesmo tempo.

Chorei de soluçar.

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It’s a little bit funny

“Lá vêm os asiáticos com suas câmeras. Eles não aproveitam as férias, só tiram foto.”

***

Não sei bem como foi quando a fotografia foi inventada e popularizada, mas a verdade é que o advento da câmera digital causou uma real mudança na maneira não só como tiramos fotos e porque as tiramos, mas também como nos relacionamos com o produto final, ou seja, a imagem.

Em uma era na qual o papel parece ter seus dias de absoluto domínio contados, é a tela – seja do computador, tablet ou smartphone – que se apresenta hoje como aquilo que nos apresenta as mais variadas experiências, vídeos e fotos inclusive. E se antes você visitava seu amigo ou familiar para ver as fotos da última viagem, agora temos a internet, que te entrega a foto remotamente, seja de maneira pessoal através de um email, ou simplesmente sendo compartilhada no Facebook diretamente para um grupo maior e variável de pessoas.

O filme não é mais desperdiçável (visto que ele nem mesmo existe) e os cartões de memória adquirem cada vez mais capacidade de armazenamento. É possível registrar de tudo, guardar tudo, ver e rever, mostrar, marcar gente, marcar lugar, criar registros cada vez mais detalhados e freqüentes sobre a nossa vida: o que vesti naquele dia, onde fui, com quem, o que comi, bebi, o começo do dia, a tarde, a noite, o gato de rua. Tudo multiplicado, porque é raro que a foto perfeita saia na primeira tentativa.

Porque quem é que quer deixar registrado esse tipo de pose?

Porque quem é que quer deixar registrado esse tipo de pose?

De repente, browseando a internet, a gente pensa: “por que diabos estou vendo esta foto?”. Não que eu tenha me deparado com nenhuma foto particularmente incômoda. Aliás, é justamente isso: o que tem aquela foto ou aquele evento de especial? Por que ele merece uma foto que deve ser não somente uma recordação pessoal, entre aqueles que participaram do momento ou que são próximos de quem ali estava, mas que deve ser colocada para toda uma rede ampla de pessoas para ser vista?

Viagens, shows… Você levanta a cabeça, olha pra frente, pra cima, e tem o real acontecendo ao seu redor, o lugar que você está (que na maioria das vezes você pagou caro para estar), mas os olhos estão na tela: a tela do check-in do Facebook, para avisar para os amigos – mas principalmente para os inimigos – onde você está; a tela da câmera com seus ajustes de zoom, flash, cores e filtros para registrar aquele momento que você nunca viveu, porque você nunca realmente viu a olhos nus aquela cena, pelo menos não sem já pensar que aquilo daria uma boa foto.

Ontem, em um show, fiquei observando o cara que estava na minha frente. (Veja bem, era impossível não observá-lo porque a) ele estava BEM na minha frente, b) ele era gigante, estilo Tropeço da Família Addams e c) porque o cara não parava de estender os braços para todos os lados com o telefone feat. câmera dele.) Sem contar os 30 a 40% do show que ele não estava presente porque tinha ido buscar tacinhas de champagne pra gangue dele, ele deve ter realmente olhado pro palco menos de um terço do tempo que estava ali. O resto era gasto olhando pra trás pra admirar o estádio, conversando e principalmente interagindo com o próprio celular.

Não eram lugares baratos (não para os meus padrões de qualquer forma), não era um show que acontece todo dia. Por que eu gastaria o tempo único daquela experiência me preocupando com o ângulo e o flash? Ou publicando na internet o que estou fazendo, onde estou?

***

Outro dia li que há uma luz no fim do túnel. Algumas pessoas já se cansaram do oversharing, de acompanhar passo a passo vidas de pessoas que nem tão próximas são, de saber de cada evento e cada pensamento do outro e que o futuro das redes sociais pode desembocar em outros cantos, priorizando mensagens pessoais ao invés daquelas direcionadas a todos e a ninguém. Talvez a tentação tenha sido muito grande. De início a idéia de compartilhar algo sem nenhuma importância específica, completamente banal e trivial, parecia ser interessante, afinal de contas dava espaço para a criatividade. Fico pensando se as pessoas não começaram de repente a transformar aquilo em obrigação de informar do passo a passo ao invés de simplesmente publicar um pensamento aleatório engraçado, diferente.

E as fotos seguem o mesmo caminho, agora com a opção de editar diretamente de seu celular e transformar a foto automaticamente num polaroid de 1985.

É interessante pensar na quantidade de fotos e vídeos armazenados e quantas vezes eles são acessados. Será que a pessoa que queria tanto registrar aquilo tudo vai um dia sentar sozinha (ou com quem quer que estivesse acompanhando) para ver aquilo tudo? Eu tendo a pensar que aqueles dados vão se perder pela internet depois de uns 20 “likes”. E assim a foto terá cumprido o seu papel.

***

Eu tirei fotos também, fiz um vídeo. Não sou contra esse tipo de coisa, só não gosto do excesso. Dito isso, curti todo o resto do show e durante minhas músicas preferidas eu não estava nem pensando em câmeras – estava muito ocupada balançando os braços e o esqueleto. Também me ocupei chorando, afinal de contas era o Elton John.

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I’m on the top of the world looking down on creation #4

Como o carro muda nossa rotina, não é? E mais do que isso, interfere em vários hábitos nossos. Por exemplo, antes eu passava muito tempo em ônibus, o que me dava oportunidade para ler e escutar muita música, mas agora, com menos tempo envolvido nos transportes, sobra menos espaço para tais coisas. Não que eu esteja reclamando, veja bem – é só que eu ainda não aprendi a lidar com essa nova organização. Sem mais delongas, as três músicas mais ouvidas da semana:

– Je sais, je vais (Baden Baden)

Essa é mais uma das músicas que me sinto culpada de gostar – não por motivos de natureza hipsterística (como foi o caso dos Lumineers), mas porque eu gosto puramente pela melodia, instrumentos e o que envolve o sonoro mesmo, mas nada, absolutamente nada do meu gostar tem a ver com o que essa música diz. Porque eu não entendo francês. De qualquer maneira, esse vídeo aí – que na verdade contém duas canções, a segunda sendo em inglês – foi tocado algumas várias vezes.

PS: E esse nome mega alemão numa banda francesa, hein?

– Baba O’reilly (The Who)

É até injusto colocar esses clássicos em listas como esta, porque a verdade é que eles são sempre ouvidos – é por isso que são clássicos. “Baba O’reilly” deve ser uma das músicas que eu mais ouvi na vida, eu sempre fico super eufórica quando aquele teclado começa e penso que esses caras são gênios de verdade por conseguir provocar nas pessoas umas sensações fora do comum ao escutar esse álbum todo. Essa semana me deparei de novo com uma notinha que falava da possibilidade mesmo de shows do The Who no Brasil, até em Belo Horizonte, o que foi suficiente para ficar com vontade de escutar de novo, várias vezes, e gritar “teenage wastelaaaaaaaaaannndd!!!”.

– Tiny Dancer (Elton John)

Vai se aproximando o show…. Mas essa música sempre vai me lembrar esse filme e a época em que eu vi “Quase Famosos” pela primeira vez.

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I’m on the top of the world looking down on creation #3

Basicamente eu escutei marchinhas de carnaval nos últimos dias. Também teve axé dos anos 90 (todo mundo que cresceu com encontros na casa da vovó com a televisão eternamente ligada no Gugu entende essa conexão emocional), rock clássico e batuques aleatórios. Mas quando eu não estava andando atrás de um bloco ou no Santa Teresa, eu estava escutando outras coisas.

– Stubborn Love (The Lumineers)

A verdade é que eu acho esses caras zuper hipsters. Assim, de verdade. O tanto que o hipster vertente folk pode ser. Mas tirando o visual, eu gostei da música, mesmo porque é o tipo que entra na cabeça, aí você escuta o álbum 645 vezes seguidas e, é provável, depois encosta num canto e esquece ou ouve uma ou outra música muito de vez em quando – porque já deu. Mas agora eu estou na fase “ó, meu deus, preciso escutar isso de novo!”, então é isso.

– The Wrong Girl (Belle And Sebastian)

Vira e mexe eu escuto muito essa música. Nem sei porque, já na verdade apesar de eu gostar de Belle And Sebastian nunca realmente parei pra escutar um álbum inteirinho, ou vários álbuns. Mas eu gosto muito dessa aí. Tudo bem que é um cara cantando sobre não achar a garrôta certa, mas eu fico pensando no outro lado, ou seja, nunca ser a garota certa.

– Alive (Pearl Jam)

Essa aqui está mais pra preencher. Mais ou menos. Porque semana passada eu realmente escutei isso aí um dia inteiro porque ia num showzito em que a banda aparentemente tocava muito grunge, e aí que me rendi. Tudo pra não boiar completamente. Explicando: eu sempre tive uma certa preguiça de Pearl Jam, nem sei direito porque. Continuo sem achar o máximo, não é algo que me empolga loucamente, mas essa aí até que é mais legal. Também pensei que, se eu curto tanto aquela trilha sonora que o Eddie Vedder fez para “Into the Wild”, faria super sentido dar uma chance pra banda do cara, afinal de contas é o trabalho pelo qual ele é aclamado e tal. Enfim, ampliando os horizontes musicais.

E a sua semana carnavalesca?

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Power to the people

Até ontem, quando me deparei com um longo texto sobre Aaron Swartz, o ativista da internet que cometeu suicídio em 11 de janeiro deste ano e que enfrentava pesadas acusações que poderiam lhe render uma pena de até 50 anos de prisão, acredito que não tinha realmente entendido a situação. E eu digo a situação toda da internet, copyright, computer crimes, corporações, e-democracia, acesso à informação – o todo.

Ainda estou longe de apreender a real dimensão disso tudo, é verdade. Em meio à imensidão da web fica difícil, senão impossível, saber de todas as outras redes que são formadas, interligando usuários com interesses similares e construindo espaços de troca. Enquanto algumas comunidades tomam notoriedade e são capazes de atrair investimentos justamente porque geram um mercado (é o caso da proliferação de blogs e vlogs sobre cosméticos, livros, games e gadgets tecnológicos, para citar os mais notáveis), outros permanecem em um plano de menor atenção, eventualmente saltando às primeiras páginas apenas quando afetam ou ameaçam afetar o sistema vigente.

É o caso do coletivo Anonymous, que foi notícia quando tirou do ar os sites dos cartões Visa e MasterCard; de Julian Assange e seu WikiLeaks, cada vez que um asilo político é negado ou concedido; das iniciativas para lutar contra o SOPA e PIPA, que estiveram em evidência no começo do ano passado. Mas fora esses acontecimentos mais específicos, o debate sobre o que essas ações significam e porque pessoas se ocupam delas enfrentando altos riscos nunca acontece. Aliás, é importante ressaltar este ponto: ativistas defendem uma causa não para tirar proveito pessoal dela, mas para que a sociedade se beneficie como um todo.

A internet ainda é vista como uma “terra” sem lei: para alguns isso significa a anarquia no sentido ultra negativo, ou seja, defendem a idéia de que é necessário controlar o meio, transpondo regras do mundo “real” para o virtual numa equivalência na maioria das vezes confusa; para outros, isso quer dizer um espaço de liberdade, intocado – uma idéia romântica de que todos possuem a mesma visibilidade e as mesmas oportunidades, de que o conhecimento finalmente se tornou acessível, à um simples clique de distância.

Não é bem assim. Não entrarei no caso das leis para crimes na internet (mesmo porque essas leis variam muito e eu apenas comecei a ler sobre o assunto) – o caso de Aaron Swartz já deixa claro que regulamentações existem e podem ser extremamente rígidas. No entanto, considerando sobretudo que a maioria das pessoas tende a reproduzir o discurso da internet como o último bastião da democracia e liberdade, é importante fazer notar que a informação não está assim à mercê de todos. Se é verdade que em alguns casos as barreiras geográficas são transponíveis (e quero dizer apenas no mundo virtual, visto que fisicamente a mobilidade está longe de ser irrestrita), a informação ainda tem outros obstáculos a superar, tal como o fator econômico.

Tomemos o exemplo desses grandes bancos de dados que guardam publicações acadêmicas por exemplo, como JSTOR e Elsevier. O acesso aos periódicos é pago: geralmente grandes instituições de ensino pagam taxas anuais (bem altas) para que qualquer um conectado em sua rede tenha acesso aos artigos e seus arquivos PDF para download. Se eu tento acessar de fora de uma desses redes autorizadas, como da minha residência, eu preciso pagar por artigo. Ou seja, o acesso ao conhecimento, a artigos reconhecidos pelo mundo acadêmico como parte da discussão dentro de seus respectivos temas de trabalho, não está ao alcance de todos. E antes que se diga que isso ocorre para proteção dos direitos autorais, vamos lembrar que os autores dos artigos não recebem nada e que, contanto que sem intenções de reprodução e distribuição, o acesso aos artigos só vem a ampliar o debate, informar mais pessoas sobre os estudos e promover maior diálogo. Seria de interesse do mundo científico, visto que leva à discussão, que por sua vez transforma e cria novas perspectivas sobre determinado tema.

Num mundo no qual a detenção do conhecimento e da informação significa detenção do poder, faz-se necessário questionar sempre quem são aqueles que controlam os canais de disseminação da informação, porque o fazem e como fazem. Se a internet é o espaço em que todos podem ter uma voz, seja através do Facebook, Twitter, blogs e vlogs, cabe então pensar no papel que podemos desempenhar ativamente na busca de igualdade de acesso.

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