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Power to the people

Até ontem, quando me deparei com um longo texto sobre Aaron Swartz, o ativista da internet que cometeu suicídio em 11 de janeiro deste ano e que enfrentava pesadas acusações que poderiam lhe render uma pena de até 50 anos de prisão, acredito que não tinha realmente entendido a situação. E eu digo a situação toda da internet, copyright, computer crimes, corporações, e-democracia, acesso à informação – o todo.

Ainda estou longe de apreender a real dimensão disso tudo, é verdade. Em meio à imensidão da web fica difícil, senão impossível, saber de todas as outras redes que são formadas, interligando usuários com interesses similares e construindo espaços de troca. Enquanto algumas comunidades tomam notoriedade e são capazes de atrair investimentos justamente porque geram um mercado (é o caso da proliferação de blogs e vlogs sobre cosméticos, livros, games e gadgets tecnológicos, para citar os mais notáveis), outros permanecem em um plano de menor atenção, eventualmente saltando às primeiras páginas apenas quando afetam ou ameaçam afetar o sistema vigente.

É o caso do coletivo Anonymous, que foi notícia quando tirou do ar os sites dos cartões Visa e MasterCard; de Julian Assange e seu WikiLeaks, cada vez que um asilo político é negado ou concedido; das iniciativas para lutar contra o SOPA e PIPA, que estiveram em evidência no começo do ano passado. Mas fora esses acontecimentos mais específicos, o debate sobre o que essas ações significam e porque pessoas se ocupam delas enfrentando altos riscos nunca acontece. Aliás, é importante ressaltar este ponto: ativistas defendem uma causa não para tirar proveito pessoal dela, mas para que a sociedade se beneficie como um todo.

A internet ainda é vista como uma “terra” sem lei: para alguns isso significa a anarquia no sentido ultra negativo, ou seja, defendem a idéia de que é necessário controlar o meio, transpondo regras do mundo “real” para o virtual numa equivalência na maioria das vezes confusa; para outros, isso quer dizer um espaço de liberdade, intocado – uma idéia romântica de que todos possuem a mesma visibilidade e as mesmas oportunidades, de que o conhecimento finalmente se tornou acessível, à um simples clique de distância.

Não é bem assim. Não entrarei no caso das leis para crimes na internet (mesmo porque essas leis variam muito e eu apenas comecei a ler sobre o assunto) – o caso de Aaron Swartz já deixa claro que regulamentações existem e podem ser extremamente rígidas. No entanto, considerando sobretudo que a maioria das pessoas tende a reproduzir o discurso da internet como o último bastião da democracia e liberdade, é importante fazer notar que a informação não está assim à mercê de todos. Se é verdade que em alguns casos as barreiras geográficas são transponíveis (e quero dizer apenas no mundo virtual, visto que fisicamente a mobilidade está longe de ser irrestrita), a informação ainda tem outros obstáculos a superar, tal como o fator econômico.

Tomemos o exemplo desses grandes bancos de dados que guardam publicações acadêmicas por exemplo, como JSTOR e Elsevier. O acesso aos periódicos é pago: geralmente grandes instituições de ensino pagam taxas anuais (bem altas) para que qualquer um conectado em sua rede tenha acesso aos artigos e seus arquivos PDF para download. Se eu tento acessar de fora de uma desses redes autorizadas, como da minha residência, eu preciso pagar por artigo. Ou seja, o acesso ao conhecimento, a artigos reconhecidos pelo mundo acadêmico como parte da discussão dentro de seus respectivos temas de trabalho, não está ao alcance de todos. E antes que se diga que isso ocorre para proteção dos direitos autorais, vamos lembrar que os autores dos artigos não recebem nada e que, contanto que sem intenções de reprodução e distribuição, o acesso aos artigos só vem a ampliar o debate, informar mais pessoas sobre os estudos e promover maior diálogo. Seria de interesse do mundo científico, visto que leva à discussão, que por sua vez transforma e cria novas perspectivas sobre determinado tema.

Num mundo no qual a detenção do conhecimento e da informação significa detenção do poder, faz-se necessário questionar sempre quem são aqueles que controlam os canais de disseminação da informação, porque o fazem e como fazem. Se a internet é o espaço em que todos podem ter uma voz, seja através do Facebook, Twitter, blogs e vlogs, cabe então pensar no papel que podemos desempenhar ativamente na busca de igualdade de acesso.

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