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A Media Luz

A mídia é sempre um assunto controverso e às vezes é difícil falar dela definindo bem as opiniões. No entanto, se tem uma coisa que me irrita profundamente é quando a imprensa resolve falar de censura.

A falta de liberdade para expressar opinião é certamente condenável. Todos devem poder dizer o que pensam (claro, desde que não ferindo outras leis – você não vai falar que “índio é preguiçoso”, não é?), falar sobre seus pontos de vista sobre política, economia, sociedade ou o que seja. Como bem diria uma música revolucionária alemã da virada do XVIII para o XIX, “os pensamentos são livres“.

Ao rotular toda e qualquer tentativa por parte do governo de colocar novas leis quanto a conteúdos publicados de “censura”, os meios de comunicação então partem do pressuposto de que a liberdade para transmitir o que quer que se queira está comprometida. Ora, sim. Mas os canais de notícias, o próprio jornalismo, não deveria estar sempre limitado? A luta pela livre imprensa travada em meados do século XIX na Europa era justificada pelos jornais: eles defendem a população, são seus olhos, o elo que conecta o povo ao Estado –  a mídia é o vigilante. Dessa forma, estaria sempre comprometida a noticiar aquilo que é de interesse geral, aquilo que afeta a vida de muitos e, ponto crucial, a mídia tem o poder de articular os próprios movimentos político-sociais.

Se olharmos as situações dos grandes jornais do mundo hoje, dos grandes canais de notícias, veremos que eles não estão nas mãos de pessoas que de formação e atuação escolheram pactuar com este papel da imprensa – as mãos que os controlam atualmente são mãos de empresários. A notícia é negócio.

Contudo, grandes empresários não vêm menos claramente que jornalistas o poder da informação. Sabe-se muito bem da sua influência, hoje muito maior do que há 150 anos atrás, muito mais rápida e de alcance incomparável. Pergunta capciosa: você acha que a mídia noticia o que é interessante para quem? Não é apenas a questão de excluir alguns acontecimentos porque eles parecem carecer de importância ou porque não se tem fontes suficientes (e esses argumentos também são totalmente contestáveis), não é “apenas” omitir – é noticiar aquilo que vai de encontro aos desejos e anseios daqueles que representam uma parcela ínfima da população – e quase sempre contra os interesses da maioria.

Como se não bastasse, ainda há a cereja do bolo: a pretensa imparcialidade. A notícia é apresentada como se vista do lado de fora, com fatos, citações, entrevistas oficiais. Ninguém nunca me falou porque aquele evento específico é importante, porque foi conferido à ele o estatuto de notícia, porque foram escolhidos aqueles fatos como os mais relevantes para explicar o ocorrido e porque somente aquelas pessoas citadas são as autorizadas para falar sobre o assunto. Eu posso até crer na veracidade de cada um desses elementos isoladamente, mas a história que se conta incluindo um ou outro fato, duas ou três pessoas a mais, pode ser bem diferente.

Voltando ao início do texto, só pelo que já expus a mídia se encontraria em sérios problemas se o assunto é censura. Mas não esqueçamos que ela tampouco contesta o governo quando as ações tomadas pelo mesmo são de seu agrado. Ela só levanta a bandeira da “liberdade de imprensa” quando seus lucros estão comprometidos – lucros esses que absolutamente não serão compartilhados com a população, portanto não há nada nessa atitude que caracterize uma luta contra a censura e a favor do povo. Nem de longe.

 

*Ao som de Carlos Gardel – A Media Luz

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