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Si se calla el cantor

Eu nunca vi tamanha incredulidade de uma população em relação à política do que no caso brasileiro. Pudera: nas últimas eleições subiram um candidato a deputado estadual que tinha como lema “pior do tá, não fica” e que dizia tampouco saber qual era a função de um deputado – mas prometia contar assim que estivesse lá e se inteirasse. E este é só um caso.

Não é difícil escutar pessoas reclamando sobre a apatia do brasileiro. Que não sabemos votar, que temos os políticos que merecemos, que deus nos fez lindo de natureza e nos sacaneou na hora de escolher nossos políticos, que não reclamamos, que tudo termina em pizza… E grande parte disso tudo é verdade, mas em algum momento nós passamos a simplesmente ver a política de maneira totalmente desesperançosa e começamos a nos excluir dela. A vemos distante, acontecendo somente entre deputados, senadores, presidente, nas capitais, em Brasília, mas longe, quase em outro universo. Escapa da maioria a percepção de si como parte do todo e como agente, como sujeito.

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No dia 24 de agosto de 2011 aconteceu uma grande manifestação em Belo Horizonte. O motivo era a greve dos professores pedindo nem mesmo um aumento, mas apenas que o governo do estado de Minas cumprisse seu dever de pagar o piso salarial da categoria. As mesmas pessoas que passam horas no churrasco do fim de semana falando mal do “povo” (essa entidade distante a qual ninguém aparentemente pertence) foram aquelas que reclamaram do trânsito. Porque elas não conseguiam enxergar a situação além disso: um caos no centro da cidade que tem como único propósito atrasar a chegada em casa. Isso é fechar os olhos, ou abri-los somente quando o assunto te beneficia muito diretamente (porque indiretas tampouco são compreendidas por pessoas de pensamento estreito).

Sabemos que nossa mídia quase não noticiou a greve e seus motivos e que se o fez agora, foi simplesmente porque seria impossível fingir que tamanha paralização não havia ocorrido. Sabemos também como ela noticia, quem ela chama para dar depoimentos, o que ela ressalta e o que deixa de falar. Mas e as pessoas que estavam ali, vendo aquilo tudo? Para estas que acreditam que “o brasileiro não se move, não grita”, não era esse o momento então de se juntar e gritar junto? Não É esse o momento?

Felizmente, para várias pessoas este é o momento. Eu vi senhoras de idade saindo de suas casas e acenando em sinal de apoio à marcha, pessoas estendendo lencóis brancos e jogando papel picado pelas janelas. Vi gente sair de seu ponto de ônibus e se juntar à marcha. E vi uma marcha que era mais do que de professores, era de alunos universitários e da própria rede estadual, assim como de outros movimentos que igualmente pedem nada mais do que o cumprimento de leis. Gente que quere simplesmente se fazer ouvir e existir como cidadão.

Aos que preferem passar a vida achando que não podem fazer nada, que dêem espaço então àqueles que sabem do seu poder enquanto cidadãos.

Manifestação de professores, estudantes, trabalhadores do campo e outros movimentos

*Ao som de Mercedes Sosa y Horacio Guarany – Si se calla el cantor

 

 

 

 

 

 

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A Media Luz

A mídia é sempre um assunto controverso e às vezes é difícil falar dela definindo bem as opiniões. No entanto, se tem uma coisa que me irrita profundamente é quando a imprensa resolve falar de censura.

A falta de liberdade para expressar opinião é certamente condenável. Todos devem poder dizer o que pensam (claro, desde que não ferindo outras leis – você não vai falar que “índio é preguiçoso”, não é?), falar sobre seus pontos de vista sobre política, economia, sociedade ou o que seja. Como bem diria uma música revolucionária alemã da virada do XVIII para o XIX, “os pensamentos são livres“.

Ao rotular toda e qualquer tentativa por parte do governo de colocar novas leis quanto a conteúdos publicados de “censura”, os meios de comunicação então partem do pressuposto de que a liberdade para transmitir o que quer que se queira está comprometida. Ora, sim. Mas os canais de notícias, o próprio jornalismo, não deveria estar sempre limitado? A luta pela livre imprensa travada em meados do século XIX na Europa era justificada pelos jornais: eles defendem a população, são seus olhos, o elo que conecta o povo ao Estado –  a mídia é o vigilante. Dessa forma, estaria sempre comprometida a noticiar aquilo que é de interesse geral, aquilo que afeta a vida de muitos e, ponto crucial, a mídia tem o poder de articular os próprios movimentos político-sociais.

Se olharmos as situações dos grandes jornais do mundo hoje, dos grandes canais de notícias, veremos que eles não estão nas mãos de pessoas que de formação e atuação escolheram pactuar com este papel da imprensa – as mãos que os controlam atualmente são mãos de empresários. A notícia é negócio.

Contudo, grandes empresários não vêm menos claramente que jornalistas o poder da informação. Sabe-se muito bem da sua influência, hoje muito maior do que há 150 anos atrás, muito mais rápida e de alcance incomparável. Pergunta capciosa: você acha que a mídia noticia o que é interessante para quem? Não é apenas a questão de excluir alguns acontecimentos porque eles parecem carecer de importância ou porque não se tem fontes suficientes (e esses argumentos também são totalmente contestáveis), não é “apenas” omitir – é noticiar aquilo que vai de encontro aos desejos e anseios daqueles que representam uma parcela ínfima da população – e quase sempre contra os interesses da maioria.

Como se não bastasse, ainda há a cereja do bolo: a pretensa imparcialidade. A notícia é apresentada como se vista do lado de fora, com fatos, citações, entrevistas oficiais. Ninguém nunca me falou porque aquele evento específico é importante, porque foi conferido à ele o estatuto de notícia, porque foram escolhidos aqueles fatos como os mais relevantes para explicar o ocorrido e porque somente aquelas pessoas citadas são as autorizadas para falar sobre o assunto. Eu posso até crer na veracidade de cada um desses elementos isoladamente, mas a história que se conta incluindo um ou outro fato, duas ou três pessoas a mais, pode ser bem diferente.

Voltando ao início do texto, só pelo que já expus a mídia se encontraria em sérios problemas se o assunto é censura. Mas não esqueçamos que ela tampouco contesta o governo quando as ações tomadas pelo mesmo são de seu agrado. Ela só levanta a bandeira da “liberdade de imprensa” quando seus lucros estão comprometidos – lucros esses que absolutamente não serão compartilhados com a população, portanto não há nada nessa atitude que caracterize uma luta contra a censura e a favor do povo. Nem de longe.

 

*Ao som de Carlos Gardel – A Media Luz

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Wait

Estava aqui jogando conversa fora com meu pai, falando nem sei direito do que, quando falei sobre a Alemanha e o controle louco que eles têm por lá sobre a internet.

Existiam alguns sites que eu não conseguia acessar e diversos vídeos no Youtube que não rodavam e eu via, no lugar do player, uma página avisando que aquele vídeo estava bloqueado para o país. Alguns até avisavam que era porque, sei lá, a Sony Music tinha proibido. O que eu não entendia é que eu não estava clicando em links postados por outros usuários, mas muitas vezes entrava na página da própria gravadora, ou então eram vídeos produzidos pelo próprio usuário, como no caso do projeto Playing For Change (que absolutamente pagou os direitos autorais de tudo o que foi regravado). Enfim, coisas que eu não entendia.

O negócio é que nunca ninguém pareceu achar isso estranho. Eu mesma nunca pensei demasiado sobre o assunto, só achava chato às vezes dar de cara com a página em branco me avisando que eu não podia acessar seu conteúdo.

E aí tem a China, né. Lá também existe um controle muito conhecido no mundo todo. Certas coisas não aparecem nos resultados de pesquisa do Google, por exemplo. E por isso (e por outras coisas também, mas nos foquemos só nesse ponto agora) a China é duramente criticada.

Não estou pretendendo comparar os dois países e o tipo de censura que eles exercem. No entanto fiquei pensando sobre as justificativas pra se censurar uma página na internet. Na China é a política que dita isso. Na Alemanha, aparentemente, é o dinheiro. (E arrisco dizer que isso muito provavelmente seja válido pra grande parte do mundo capitalista.) O que faz um menos condenável que o outro?

 

*Ao som de The Beatles – Wait

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Travessia

Novos anos dificilmente trazem alguma mudança significativa. Geralmente a passagem do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro geralmente só altera o ano no calendário. Mas desta vez foi bem diferente.

É um fim e um começo.

Fim da era Lula, de oito anos do que foi na minha opinião o melhor governo que o Brasil já viu, de 87% de aprovação, de gente saindo da miséria, de crescimento, de reconhecimento internacional, do Brasil sendo levado a sério. Tudo sob o comando de um torneiro mecânico, sem estudo formal e menos um dedo, mas com vontade e capacidade de mudar e se voltar para o social.

Mas também é o começo. Do que exatamente, não sabemos, mas temos expectativas. Governo da primeira presidenta do país. Mais um símbolo de que, como minha mãe gosta muito de dizer, o mundo dá voltas. Aquela que foi um dia torturada pela ditadura militar, que lutou pela democracia – e que hoje ocupa o cargo mais importante que se pode ter dentro da nossa democracia.

Continuamos no caminho, fazendo nossa travessia de país periférico e dependente para uma nação séria, respeitada e aos poucos se tornando um lugar melhor para seus próprios cidadãos.

 

Lula passa a faixa presidencial para Dilma Rousseff

Lágrimas. Muitas lágrimas por aqui.

 

*Ao som de Milton Nascimento – Travessia

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